Atenção, esse conto não foi retirado nem teve inspiração vinda diretamente de nenhuma outra obra. Foi fruto de um sonho que tive.
Era 1870, Garbeg tinha um casal de filhos pequenos e uma mulher ciumenta. Garbeg via algo que nenhuma outra pessoa que ele conhecia via. Ele enxergava as pessoas em um outro nível, ele conseguia ver suas personalidades desenhadas como belos trajes e adornos em volta de si.

Sua mulher era extremamente linda aos seus olhos estranhos, ela tinha um ar azulado que a contornava, vestido grego daqueles da roma antiga, longos cabelos castanhos encaracolados, que caíam sobre seus ombros e parte do busto como um manto de resplendor, brilhavam como ouro quando era tocados pela luz. Tinha faixas brancas de tecido que se mantinham harmoniosamente e a davam um ar celestial.
Sua filha menor tinha um ar esverdeado de inocência e beleza, e o que mais chamava a atenção era uma espécie de lenço branco que delicadamente segurava seu cabelo para cima a para trás, num "rabo de cavalo" curto, acompanhando sua pequena franja channel.
Seu filho, um pouco maior, era mais agitado e em volta de si o ar era branco avermelhado quanto mais próximo dele se via. Como representação de ser um menino ativo e que aprontava bastante, possuía uma faixa em volta da cabeça, como se fosse para guerra vencer alguma espécie de invasor inseto alienígena do mal.

Sua mulher já sabia dessa habilidade dele, mas não davam muita atenção pois não conseguiam os ver e contavam apenas com os relatos de Garbeg. Nunca sabendo se isso no fundo não era uma iniciativa de pai e marido de fazer sua família se sentir especial ou mesmo se isso não era um delírio de sua parte.
Com uma convicção de ver algo que não podia dividir com mais nenhum amigo, Garbeg começava a se sentir só. Ninguém mais compartilhava daquilo. Então Garbeg percebeu que podia fazer algo para mudar a situação.
Ao final de alguns anos de pesquisa e trabalho dedicado ele criou uma máquina fotográfica que podia captar isso que ele via. Agora Garbeg se sentiu feliz pois todos veriam isso que ele tinha acesso. Não estava mais só. E foi o que ele fez.
Quando sua mulher viu como a mulher da foto era, viu que era muito mais bonita do que como ela via a si mesma. E ficou com um ciúme tão grande dela, porque mesmo sendo sobre si mesma ali, não era o que Garbeg via. Não era o que ela se considerava como sendo. Não era o corpo que ela tinha acesso a. E se deixando consumir pelo desgosto, a esposa de Garbeg morre em poucos anos.

Não parando por aí, a filha de Garbeg morre de tristeza por perder a mãe tão cedo na vida. E ele também perde o filho em um acidente de transporte, quando o caminhão em que ia para a escola cai de uma ponte da região de interior onde moravam.
Garbeg então passa grande parte do seu tempo só. Não se sente mais confortável em presença de outros, não consegue se relacionar mais com pessoas que não o entendem e passa a evitar locais públicos.
Anos depois, Garbeg visita sua família no cemitério para conferir se ainda consegue vê-los tais quais como eram a seus olhos. Eles ainda são o único laço considerável em sua solitária vida.
Houve uma época em sua região que os mortos eram colocados em um tipo de construção fúnebre específica. Não eram enterrados sob o chão. Havia um prédio de poucos andares que era localizado quase abaixo do solo, para que seus espaços fossem preenchidos com água. Água que conservaria os corpos ali guardados.
E é ali que está a família de Garbeg. Porém essa prática havia sido abandonada na localidade, restando esse prédio desativado como o último do tipo. Seu nível de água estava incompleto, de forma que cobria dois andares e o terceiro ficava pela metade, cobrindo apenas os caixões ali depositados.
Era madrugada, Garbeg começou a procurar sua família em meio aos caixões e foi abrindo vário caixões. Enquanto procurava por sua família, ele não percebeu um movimento muito estranho, os corpos descobertos começaram a sentar e se levantar.
Sua mulher já não estava mais inteira e seus filhos acordaram dos mortos. Garbeg estava em perigo pois todos ali queriam que ele se juntasse a eles. E no meio daquela penumbra fraca de lua minguante ele se debatia contra os mortos que tentavam o afundar na água com eles.
Porém, como seus filhos também estavam sendo atacados e sua mulher em pedaços. Ele tira de seu bolso de dentro do casaco uma pílula de veneno e a toma. Garbeg entendeu que é melhor ter muitos amigos mortos do que nenhum. Deixando-se afundar junto aos corpos azulados que o puxavam.
FIM